Esta matéria é a primeira de muitas que virão. Tenho a agradecer aos Editores da Revista Bicicleta que me foi concedido a publicação desta matéria mensal (autor: André Geraldo Soares - Revista Bicicleta - Ano 02 - nº 14 - Fevereiro de 2012, p. 38.
O ano de 2012 já começa com duas boas notícias para os ciclistas: o parlamento da União Europeia votou favoravelmente à ampliação da EuroVelo, a rede europeia de ciclovias, para 700.000 km; e a Alemanha construirá, ainda nesse ano, com 60 km de extensão, a primeira de sua projetada rede de autoestradas com quatro pistas exclusivas para ciclistas. Obviamente que o calibre dessas medidas não tem ainda lugar no solo tupiniquim.
Examinemos a história recente da administração pública brasileira para verificar se existem fatos que podem nos conceder o prazer do otimismo: qual cidade está sendo contemplada com um plano de desenvolvimento ciclístico a curto médio e longo prazo? Qual prefeitura instituiu qualquer meta mensurável de acréscimo da participação da bicicleta na mobilidade urbana para a próxima década? Qual conselho Municipal de Transporte (ou similar, onde ousa existir) delibera sobre a bicicleta no trânsito? Quais programas de incentivo, de forma continuada, foram implementados em nível estadual ou federal? Qual é a qualidade das vias ciclísticas recentemente construídas? Ou seja, onde e quanto as coisas realmente têm melhorado?
Em se tratando de mobilidade urbana, o que se entende por "melhoramento" está sempre ligado à expansão da infraestrutura para os veículos motorizados individuais. Melhoramento via´rio significa para os planejadores urbanos e técnicos de obras públicas, aumentar a capacidade de tráfego de carros com viadutos e duplicações - e se algum minguado canteiro de flores é acrescentado, a intervenção ganha o pomposo nome de "humanização". Entretanto, toda vez que se melhoras o trânsito de carros, temos duas invariáveis consequências.
A consequência imediata é a piora da vida dos ciclistas, pedestres e cadeirantes. Fica mais demorado e perigoso atravessar uma rua que se torna mais larga e na qual a velocidade regulamentada - e desobedecida - torna-se maior; com o fluxo e a velocidade, as raras faixas de travessia de pedestres viram enfeites na pista; os pontos de ônibus, quando não são eliminados, são deslocados para mais longe; passarelas para pedestres, quando construídas, são espaçadas e requerem uma escalada equivalente a um prédio de dois andares.
E a consequência posterior, geralmente em curto prazo, é a re-saturação do trânsito, mantendo ou ampliando o congestionamento e a poluição. O que ocorre, sem que os planejadores urbanos o admitam, é que todo melhoramento é sempre paliativo e provisório, deslocando o ponto de estrangulamento para mais adiante, e que a oferta de novas vias estimula o cidadão a comprar um carro, seja para fugir do - propositalmente? - precário transporte público, seja porque caminhar e pedalar por ali tornou-se impeditivo.
O melhoramento viário e o tecido urbano, arruína ecossistema e paisagens naturais e ignora quem se locomove ativamente. Quanto mais elogiosas são as manchetes jornalísticas, mais nocivo o trânsito se torna para os seus elementos mais vulneráveis, mais para longe se expulsa a tranquilidade, mais se avança na contramão da sustentabilidade e da democracia.
Agora é preciso distinguir entre a análise e a ação. A análise da situação e das perspectivas precisa ser realista, sem ser contaminada por ilusões otimistas ou por torpores pessimistas de quem conduz. Dito isto, é preciso admitir que o quadro da mobilidade urbana no Brasil e da inclusão ciclística é ruim e as expectativas não são promissoras: a mentalidade administrativa prioriza o desenvolvimento econômico e a vontade popular é dominada pela busca do conforto individual.
Uma perspectiva pessimista só pode ser arredada se encontrarmos indícios de uma reação social, uma reação crescente em quantidade - a transformação dos isolados ativistas em massa - e em qualidade - atividades organizadas, campanhas eficientes, pressão política etc. Agora sim, podemos encontrar apoio para o otimismo: não obstante o desânimo dos movimentos sociais brasileiros na última década, e apesar do avanço ainda acelerado do desenvolvimento capitalista-tecnocrático, observamos muitos jovens encontrando sentido para agir socialmente naquilo onde são afetados.
Tornando caótica a vida de quem vive na cidade, os gestores públicos (que, sabemos, estão a serviço do privado) provocam tensões inescapáveis, pois ofendem a inteligência e indignam a moral social. Dada a lata de tradição dos brasileiros de buscar participar do planejamento público, ou seja, dada a falta de vontade democrática, é do pior que poderá, por reação, advir o melhor. O caminho é mais longo, os danos serão enormes, mas é com isso que poderemos contar: quanto mais administradores públicos melhoram o sistema viário, pior ficará a mobilidade urbana para todos os cidadãos, e quanto mais grave a situação, melhores se tornam as chances da sociedade iniciar sua oposição.

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