Tá lá o corpo estendido no chão. "Poderia ser eu", é o pensamento inevitável de todo ciclista ao ver uma bicicleta retorcida e, ao lado, sem vida, seu condutor. Depois de uma cena dessas é difícil montar na bicicleta sem uma secura na garganta, sem hesitar a cada esquina, sem se assustar a cada carro que passa. Não se trata de afetação corporativista ou de sentimento de irmandade - é pura e simplesmente uma apercepção, um dar-se conta da própria vulnerabilidade.
Todo o ciclista tem histórias para contar de situações perigosas, de quase-acidentes, de agressões sofridas e, nem todos admitem, de erros cometidos no trânsito. Quanto maior o uso da bicicleta - em distância ou em frequência - maior é o enredo tétrico. Mais que isso, todo ciclista já perdeu algum familiar, amigo ou conhecido vitimado pela violência viária ("acidente" não é um termo verdadeiro para a maioria dos casos), o que é uma forma de admitir que todo ciclista já foi sentimentalmente ferido no trânsito.
Sim, todo mundo já perdeu alguém no trânsito e toda morte é emocionalmente dolorosa para os próximo, seja qual for a causa. Portanto, não podemos aceitar que os cerca de 1.500 ciclistas abatidos anualmente no Brasil sejam considerados mais importantes ou mais comoventes do que os demais cerca de 96% de mortos das outras modalidades (segundo dados do Ministério da Saúde e do Denatran - é preciso ressaltar que trata-se apenas de casos notificados).
Mas é revoltante que as modalidades que são parte da solução para o imbróglio da mobilidade urbana no Brasil sejam as mais vitimadas (e aqui acrescentamos os pedestres, cerca de 9.000 mortos anuais, que representam cerca de 25% do total). Somando ciclistas e pedestres e admitindo falhas nas notificações e nos registros, é seguro afirmar que 1/3 dos seres humanos mortos no trânsito brasileiro não estavam dentro ou sobre veículos motorizados.
Há mais dois dados importantes para compreendermos o quão arriscados é ser ciclista: apesar da frota de bicicletas ser de 65 milhões de unidades (o dobro da frota de automóveis), apenas 7% dos deslocamentos urbanos se dão por meio deste veículo (segundo o Ministério das Cidades), o que, proporcionalmente, aumenta o índice de vítimas que pedalam em relação às demais modalidades.
Ou seja: não é pequena a probabilidade de que aquele corpo ali poderia ser o meu (que escrevo ou que leio este artigo)! Ou, o que pode ser ainda mais terrível, do meu pai, da minha namorada, do meu enteado, do meu bom vizinho, do meu companheiro de cicloaventuras! E se for de um desconhecido meu, será do relacionamento de alguém, que igualmente será afligido pelo medo e pela vontade de desistir, ou então tomado pela indignação e pela vontade de contribuir para que a carnificina cesse.
É aceitável que alguém - enquanto se fala em salvar o planeta, em romper com o sedentarismo, em erradicar a corrupção, em fluir o trânsito - desista da bicicleta como meio de transporte? Pois se faltam investimentos em infraestrutura para a segurança ciclística, se inexistem programas educativos para o compartilhamento viário e se os culpados saem após pagar um trocado de fiança, não é isto que o poder público está estimulando? Se as ruas são feitas de ringue, se o conforto individual é mais valorizado do que o bem-estar social e se a voz do eleitor só se eleva para pedir mais viadutos, não é isto que os carrófilos estão estimulando?
Pois a opinião pública e os meios privados que a manipulam, tende a aceitar mais facilmente a diminuição de ciclistas nas ruas, quando receosos estes ficam de arriscar seus ossos, do que os protestos em via pública e demais manifestações de ciclistas, quando estes indignados ficam com a condição desigual que lhes é imposta.
Nem todo ciclista que continuar pedalando - alguns por necessidade, outros por influência -, mas nenhum ciclista quer morrer em consequência da violência viária. É por isso que muitos ciclistas que desejam continuar pedalando também não aceitam se colocar no lugar da causa da violência viária e não admitem dizer "poderia ser eu ali dirigindo": menos pessoas dirigindo é uma das condições sine qua non para a segurança viária e para a qualidade de vida nas cidades. Poucos são os motoristas e menos ainda são os gestores públicos que aceitam essa redução, o que leva os ciclistas a pensar: ou eu passo a frequentar as bicicletadas e outras ações coletivas, ou continuarei a frequentar velórios - talvez, inclusive, o meu!
(Autor: Soares. André Geraldo. Revista Bicicleta. Ano 02 - nº 16 - Abril 2012, pág. 34)

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